3° Sermão de São Leão Magno sobre a Quaresma

1. Tempo de limpar e enfeitar a casa por dentro

          Caríssimos, convém que vivamos sempre de modo sábio e santo, dirigindo nossas vontades e nossas ações para aquilo que sabemos agradar a justiça divina; no entanto, como se aproximam os dias mais importantes que originaram os sacramentos da nossa salvação, devemos dedicar cuidado maior para purificar nossos corações e entregar-nos, mais cuidadosamente aos exercícios das virtudes: do mesmo modo que os mistérios são maiores do que qualquer de suas partes, assim também nossa fidelidade deve superar seus próprios costumes; e, quando mais sublime é a festa tanto mais preparado deve estar aquele que vai participar dela.



         Parece, com efeito, uma prática racional e de alguma forma religiosa, vestir-se mais elegantemente em dia de festa, manifestando pela beleza corporal a alegria do espírito; se dedicamos também cuidado especial em decorar a casa da oração com maiores enfeites, não é conveniente para a alma cristã, que é verdadeiro e vivo templo de Deus, se preparar com atenção e, para celebrar o mistério de sua redenção, tomar todo cuidado, ciosamente, para que nenhuma mancha de injustiça a ofusque, para que nenhuma ruga de superioridade do coração a desfigure? Com efeito, para que serve uma busca exterior que aparenta honestidade, se o interior do homem está sujo pela contaminação de alguns vícios? Tudo aquilo que empana a pureza da alma e o brilho da mente deve, portanto, ser cuidadosamente apagado e, mediante certa limpeza, deve tornar-se ainda mais brilhante.

          Perscrute cada um a sua consciência e se apresente diante de si mesmo para censura do próprio julgamento. Veja cada um, na intimidade do seu coração, se encontra aquela paz que é dada pelo Cristo, se o desejo do espírito não é combatido nele pela fraqueza corporal, se não despreza os humildes, se não ambiciona os altos postos, se não se alegra com lucro iníquo, se não encontra sua satisfação no aumento desordenado de suas riquezas, se, enfim, a felicidade do outro não o incomoda muito, ou a infelicidade de um inimigo não lhe traz grande satisfação. Se, talvez não encontrar nele nenhum destes desvios, procure, cuidadosamente, com sincero exame, qual é, habitualmente, a natureza de seus pensamentos: será que jamais consente na imaginação das vaidades ou será que afasta de seu espírito, o mais rápido possível, a imaginação que satisfaz, perigosamente?

           Na verdade, não ser estimulado por nenhuma atração, não ser provocado por nenhum desejo, não é próprio desta vida, que é, toda ela, uma tentação, que certamente vence àquele que julga nunca ser tentado. É orgulho, pois, presumir da facilidade de não pecar, porque esta mesma presunção já é pecado, segundo a palavra do santo apóstolo João: “Se dissermos: “não temos pecado”, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1 Jo 1,8

2. E necessário vigilância constante

          Ninguém se iluda pois, caríssimos, ninguém se decepcione: que ninguém confie de tal forma na pureza de seu coração que julgue não estar sujeito ao perigo das tentações; uma vez que o tentador, sempre vigilante, prepara armadilhas sempre mais requintadas, sobretudo para aqueles que, com maior empenho, desejam afastar-se do pecado. E de quem ele deixaria afastados seus enganos, ele que ousou tentar com sua esperteza até o Senhor de majestade? Ele viu sua soberba colocada aos pés pelo Senhor Jesus, na humildade de seu batismo: ele tinha compreendido que no jejum de quarenta dias excluía qualquer desejo carnal e, no entanto, este espírito cheio de perversidade não perdeu a esperança em seus artifícios de maldade; ele comprovou tanto a mutabilidade de nossa natureza que se persuadiu de que todo aquele de quem ele tivesse experimentado a verdadeira condição humana, poder-se-ia tornar pecador.

         Se, portanto, o diabo não poupou nosso Senhor e Salvador de suas armadilhas e de suas mentiras, quanto mais ousará invadir nossa fragilidade, a nós que persegue com ódio mais veemente e com inveja mais cruel, desde o dia em que renunciamos a ele através do batismo e nos tornamos, pela regeneração divina, nova criatura, abandonando a primeira natureza dominada por ele! Por isto, enquanto estivermos revestidos da carne mortal, o antigo inimigo não deixará de nos assediar em todo lugar com os laços do pecado, enfurecendo-se contra os membros do Cristo, sobretudo quando eles estão para celebrar os mistérios mais sagrados. Por isso, é muito proveitoso que o ensinamento do Espírito Santo tenha imbuído o povo cristão do costume de se preparar para a festa pascal com uma abstinência de quarenta dias. A razão desta purificação já nos convida para sua observância salutar e nos indica com que cuidado conduzir a ascese proposta. Com efeito, quanto mais santamente passamos estes dias, tanto mais estaremos mostrando que honramos a Páscoa do Senhor.

3. Tempos de reconciliação

Nestes dias consagrados aos santos jejuns, portanto, pratiquemos mais abundantemente as obras de caridade, às quais, aliás, sempre devemos nos aplicar: “Enquanto temos tempo, pratiquemos o bem para com todos, mas sobretudo para com os irmãos na fé”(G16,10); assim, pela distribuição de nossas esmolas, imitemos a bondade do Pai celeste que “faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,45). Embora, pois, deva ser auxiliada principalmente a pobreza dos fiéis, também aqueles que ainda não receberam o evangelho devem ser socorridos em suas necessidades: porque é preciso amar em todos os homens a comunhão da natureza, a qual nos deve tornar amáveis em relação àqueles que de algum modo nos são subordinados, sobretudo se já estiverem regenerados pela mesma graça e redimidos pelo mesmo preço que nós, pelo sangue de Cristo.

          Com efeito, temos em comum com eles que fomos criados a imagem de Deus e que nem a origem corporal, nem o nascimento espiritual os separam de nós. Somos santificados pelo mesmo Espírito, vivemos animados pela mesma fé, participamos dos mesmos sacramentos. Não desprezemos esta unidade, não diminuamos o Valor desta comunhão: tudo isto nos torna mais afáveis, pois mesmo servindo-nos de sua subordinação, pensemos que nós também, junto com eles, nos subordinamos ao mesmo serviço do único Senhor. Portanto, se algum dentre eles ofenderam seus senhores com faltas mais graves, sejam perdoados nestes dias de reconciliação. Suprima a indulgência a severidade e o perdão apague a vingança.

          Ninguém permaneça fechado, ninguém permaneça encarcerado: com efeito, nosso Deus pôs como condição de sua misericórdia que nós perdoemos os pecados dos outros se quisermos estar seguros do perdão dos nossos pecados. Caríssimos, contenhamos os motivos de discórdia, os espinhos da inimizade. Cessem os ódios, desapareçam as simulações, que todos os membros de Cristo se encontrem na unidade do amor: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9); não somente os filhos, mas também os herdeiros, “herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8,17), que vive e reina pelos séculos dos séculos, “amém.

 Fonte: Sermões: Leão Magno. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1996. 216 p. (Patrística).
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