Primeiro Sermão de São Leão Magno sobre a Paixão do Senhor

 
SOBRE A PAIXÃO DO SENHOR (pronunciado no domingo)

1. A salvação do mundo pela Paixão de Jesus Cristo

Caríssimos, o mistério da Paixão, que o Senhor Jesus, Filho de Deus, abraçou para a salvação do gênero humano, atraindo, depois de elevado, tudo a si, como tinha prometido, esse mistério a palavra do Evangelho o revelou tão clara e manifestamente que, para os corações
religiosos, e piedosos, não havia diferença entre ouvir o que foi lido e ver o que se passou. Por isso, gozando a narração sagrada de uma indubitável autoridade, devemos esforçar-nos, com a ajuda do Senhor, para que a inteligência tenha uma visão clara do que a história nos dá a conhecer. Devemos recordar essa primeira e universal ruína causada pela prevaricação humana, porque “por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, por que todos pecaram”. Sendo assim, ninguém escaparia à horrorosa dominação do diabo, ninguém se libertaria das cadeias de duro cativeiro; a ninguém se abririam, seja o perdão para a reconciliação, seja o retorno à vida, a menos que o Filho, Deus co-eterno e igual a Deus Pai, se dignasse ser também filho do homem, vindo “procurar e salvar o que estava perdido”.

Assim, como tinha havido morte por Adão, haveria ressurreição dos mortos pelo Senhor Jesus Cristo. Com efeito, se, pelo impenetrável desígnio da sabedoria de Deus, o Verbo se fez carne nos últimos dias, não se segue que o parto salutar da Virgem tenha sido proveitoso só às gerações do fim dos tempos, e não se tenha estendido também às épocas passadas. Não; foi nessa fé que viveram e agradaram a Deus todos aqueles, sem exceção, que outrora adoraram o verdadeiro Deus, isto é, todo o conjunto dos santos dos séculos precedentes, e nem para os patriarcas, nem para os profetas, nem para qualquer outro santo houve salvação e justificação, a não ser pela redenção de nosso Senhor Jesus Cristo. Como ela era esperada, porque prometida por muitos oráculos e sinais feitos pelos profetas, assim ela foi tornada presente pelo seu próprio dom e pelo seu cumprimento.

2. Deus e o homem neste mistério

Por isso, agora, caríssimos, em todo o desenrolar da paixão do Senhor guardemo-nos de considerar a fraqueza humana como se julgássemos que o poder divino pudesse ter faltado nela; não imaginemos a condição do Filho único, que o torna igual e co-eterno com o Pai, como se pensássemos que não se deu verdadeiramente tudo o que parece indigno de Deus. As duas naturezas são um só Cristo; aqui o Verbo não está separado do homem, e o homem não está dissociado do Verbo. O abaixamento não repugna, porque a majestade não foi diminuída. Nada prejudicou a natureza inviolável, devido à necessidade de que a natureza passível sofresse; toda essa ação sagrada, consumada simultaneamente pela humanidade e pela divindade, foi uma dispensação da misericórdia e uma obra da compaixão.

 Com efeito, estávamos atados por laços tais que, sem esse socorro, não podíamos ser libertados. O abaixamento da divindade é, pois, nossa elevação. Foi por um preço tão alto que fomos remidos, e é com tanto dispêndio que somos curados. Com efeito, que recurso teria a impiedade para voltar à justiça, e a miséria para encontrar a felicidade, se o justo não se inclinasse para os ímpios, e o bem-aventurado para os miseráveis?

3. As manifestações da divindade na paixão do Filho do homem

Não nos envergonhemos, pois, caríssimos da cruz de Cristo; ela provém da força do projeto divino, não da condição do pecado. Porque, embora o Senhor Jesus tenha verdadeiramente sofrido e verdadeiramente morrido por causa de nossa fraqueza, ele não se privou de sua glória ao ponto de nada mostrar da ação divina entre os ultrajes de sua paixão. Com efeito, o ímpio Judas, não mais coberto com a pele de ovelha, mas manifestando-se com o furor de um lobo, começou sua violência criminosa sob as aparências de paz e deu o sinal da traição com um beijo mais cruel do que todos os dardos. A multidão furiosa, que, para prender o Senhor, se tinha juntado à coorte armada dos soldados, não via, entre os archotes e as lanternas, a verdadeira luz, cegada que estava por suas próprias trevas.

Ora, o Senhor, como atesta o evangelista João, tendo preferido esperar a multidão, e não fugir, perguntou aos que ainda não o tinham descoberto, por quem procuravam; como respondessem que procuravam a Jesus, disse-lhes: “Sou eu”, e essa palavra, como o raio, abateu e prostrou essa tropa, composta dos homens mais ferozes, de modo que todos eles, hostis, ameaçadores e terríveis, recuaram e caíram de costas. Onde estava a conspiração da violência? Onde o ardor da ira? Onde o aparato das armas? O Senhor diz: “Sou eu”, e à sua voz, a tropa dos ímpios é atirada por terra. Qual não será o poder de sua majestade quando ela vier julgar, se sua humildade pôde tanto quando ia ser julgada?

4. Seu caráter humano querido para a nossa salvação

Entretanto, o Senhor, sabendo o que convinha mais ao mistério que tinha abraçado, não persistiu nessa manifestação de poder, mas deixou seus perseguidores encontrar o poder de cometer o crime que eles tinham decidido. Porque, se ele não tivesse querido deixar-se prender, com toda a certeza não teria sido preso. Mas, quem dentre os homens seria salvo, se ele não consentisse em ser preso? Com efeito, o próprio são Pedro, afeiçoado como era ao Senhor, por uma fidelidade mais intrépida e pelo ardor de um santo amor, para repelir o assalto daqueles que usavam de violência, puxou da espada e feriu um servo do príncipe dos sacerdotes, cortando uma orelha daquele homem, que atacava com mais ousadia.

 Mas o Senhor não permitiu que o zeloso apóstolo continuasse em seu generoso movimento, ordenou-lhe que pusesse a espada na bainha e não aceitou ser defendido contra os ímpios com as mãos e a espada. Seria contrário ao mistério de nossa redenção, se aquele que viera morrer por todos se recusasse a deixar-se prender; diferindo o triunfo de sua gloriosa cruz, ele teria prolongado a tirania do diabo e feito prolongar-se a escravidão dos homens. Por isso, ele deu àqueles que se enfureciam contra ele a permissão de exercer seu furor, sem que a divindade se dedignasse revelar-se até a eles. A orelha do servo, já morta, porque cortada e separada do corpo vivo, é colocada em seu lugar, na cabeça desfigurada, pelas mãos de Cristo: elas refazem o que elas mesmas tinham feito; e a carne não tarda a seguir a ordem daquele do qual era obra.

5. Apóstrofe aos judeus e a Judas. Remitência à quarta-feira seguinte

Essas ações têm, pois, uma virtude divina. Mas, se o Senhor conteve o poder de sua majestade e sofreu em si a violéncia do perseguidor, foi por causa dessa vontade, pela qual “ele nos amou e se entregou por nós”, e com a cooperação do Pai, “que não poupou o seu próprio Filho e o entregou por nós”. Pois uma só é a vontade do Pai e do Filho como uma só é a divindade; e do resultado de tal desígnio nós não devemos nenhum agradecimento a vós, ó judeus, nem a ti, Judas.

Na verdade, a vossa impiedade serviu para a nossa salvação, sem que vós o tivésseis pretendido, e por vós realizou-se tudo o que “a mão de Deus e seu conselho tinham predeterminado”. Amorte de Cristo nos liberta e vos acusa. Com razão sois os únicos a não ter aquele que a vossa vontade fez morrer para todos. E, no entanto, tão grande é a bondade de nosso Redentor que poderíeis, também vós, obter o perdão se, confessando que o Cristo é o Filho de Deus, renunciásseis a essa maldade parricida. Porque não foi em vão que, na cruz, e Senhor orou nestes termos: “Pai, perdoa-lhes; não sabem o que fazem”.

Tal remédio não teria ignorado nem a ti, Judas, se tivesses procurado refúgio nessa penitência, a qual te teria reconduzido a Cristo, e não incitado à força. Com efeito, dizendo: “Pequei, entregando sangue inocente”, persististe na impiedade de tua perfídia, porque, no momento do lance supremo de tua morte, não acreditaste em Jesus Deus e Filho de Deus, mas somente em Jesus homem de nossa condição; terias comovido sua misericórdia, se não tivesses negado sua onipotência.

Caríssimos, bastem por hoje essas palavras insufladas aos vossos piedosos ouvidos, para que não causemos tédio pela prolixidade. O que falta para completar, com o auxílio do Senhor, prometemos dizer na quarta-feira, porque aquele que deu o que já falamos dará, assim o cremos, o que falarmos, por nosso Senhor Jesus Cristo.

Fonte: Sermões: Leão Magno. 1. ed. São Paulo: Paulus, 1996. 216 p. (Patrística).
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